Giardia lamblia

Giardia lamblia

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Microorganismo: Giardia lamblia.


Microbiologia:  Filo: Sarcomastigophora; Subfilo: Mastigophora; Classe: Zoomastigophorea; Ordem: Diplomonadida; Família: Hexamitidae; Genero: Giardia. A Giardia lamblia apresenta duas formas evolutivas distintas, o trofozoíto e o cisto. O trofozoíto é encontrado no intestino delgado, movimenta-se pela atividade dos flagelos, sua nutrição se faz pela membrana e por pinocitose e a reprodução ocorre por divisão binária longitudinal. Em relação às características morfológicas, o trofozoíto é piriforme, com simetria bilateral e mede 20 µm por 10 µm. Essa forma apresenta quatro pares de flagelos: um par de flagelos anteriores, um par de flagelos ventrais, um par de flagelos posteriores e um par de flagelos caudais. A face dorsal é lisa e convexa, enquanto a face ventral é côncava, apresentando uma estrutura semelhante a uma ventosa, que é encontrada somente no gênero Giardia e é conhecida por várias denominações: disco ventral, disco adesivo ou disco suctorial. Esse disco é uma estrutura complexa, formada por microtúbulos e microfilamentos que permitem a adesão do parasito à mucosa intestinal. Abaixo do disco adesivo, ainda na face ventral, observa-se a presença de uma ou duas formações paralelas, em forma de vírgula, conhecidas como corpos medianos. Os trofozoítos apresentam dois núcleos idênticos apresentando um cariossomo central sem cromatina periférica. Apresenta retículo endoplasmático, ribossomos e aparelho de Golgi. Não tem mitocôndrias. O cisto é oval ou elipsóide, medindo 12 µm por 8 µm de largura e apresenta uma parede externa de natureza glicoprotéica com espessura de 0,3 µm. A parede externa torna os cistos resistentes a variações de temperatura e umidade e também à ação de produtos químicos empregados como desinfetantes. Os cistos podem se manter viáveis por até dois meses no meio ambiente. No interior do cisto encontram-se dois ou quatro núcleos e um número variável de axonemas de flagelos.
Reservatório: Homem e outros mamíferos, aves, répteis e anfíbios.
Modo de transmissão: A transmissão ocorre por via fecal-oral, seja, indiretamente pela ingestão com a água e alimentos contaminados ou, diretamente de pessoa a pessoa por meio de mãos contaminadas com cistos de Giardia. Poucos cistos são necessários para infectar o hospedeiro, sendo que 10 a 25 formas são suficientes para iniciar a infecção humana. Após a ingestão, o cisto passa por um processo de desencistamento, que tem início no meio ácido do estômago e completa-se no duodeno e jejuno, onde cada cisto maduro (quatro núcleos) libera dois trofozoítos binucleados. Os trofozoítos multiplicam-se por divisão binária longitudinal e assim colonizam o intestino, onde permanecem aderidos à mucosa intestinal por meio do disco ventral. Muitos desses trofozoítos passam por um processo de encistamento, ao final do qual são produzidos os cistos. Esse processo pode se iniciar no baixo íleo, mas o ceco é considerado o principal sítio de encistamento. Durante o encistamento, ao redor do trofozoíto é secretada pelo parasito uma membrana cística resistente composta parcialmente por quitina. Dentro do cisto ocorre nucleotomia, podendo ele apresentar-se então com quatro núcleos. Os cistos produzidos são excretados juntamente com as fezes do hospedeiro podendo permanecer viáveis por vários meses no meio ambiente, desde que em condições favoráveis de temperatura e umidade.  
Período de incubação: 2 a 4 semanas.
Doença(s) que causa: Giardíase.
Introdução:  Giardíase é a infecção intestinal causada pelo protozoário flagelado Giardia. É uma das causas mais freqüentes de diarréia que podem levar a distúrbios de absorção intestinal e retardo no desenvolvimento. Nas populações residentes nos países desenvolvidos, Giardia é o principal parasito intestinal encontrado na população. Em países como os EUA, a associação entre infecção por Giardia e surtos de diarréia, particularmente em crianças atendidas em creches, tem levado muitos autores a considerar esse parasito um agente infeccioso emergente.
Epidemiologia: Giardia é um dos enteroparasitos mais freqüentemente observados nos exames parasitológicos devido à facilidade com que os cistos são acidentalmente ingeridos com a água e alimentos contaminados com fezes. A infecção por Giardia é cosmopolita, ocorrendo em áreas desenvolvidas e em desenvolvimento. Os índices de prevalência variam de 2 % nos países desenvolvidos até 30% nos países em desenvolvimento. Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), estima-se que haja 200 milhões de pessoas com giardíase sintomática no mundo e 500 mil novos casos registrados anualmente em populações residentes na Ásia, África e América Latina. Nos países desenvolvidos Giardia é o principal parasito encontrado na população. Nessas áreas, além das altas prevalências constatadas em grupos específicos, como por exemplo, em viajantes e homens homossexuais, a infecção por Giardia é a causa mais freqüente de surtos epidêmicos de diarréia associados à água para consumo. A giardíase constitui um importante problema de saúde pública nos países em desenvolvimento, onde as maiores prevalências têm sido observadas entre crianças mantidas em creches. Nesses locais, as crianças são expostas à infecção em uma idade em que ainda não adquiriram hábitos de higiene pessoal, podendo transmitir o parasito aos seus familiares, às outras crianças ou às pessoas que trabalham nesses estabelecimentos, além de contaminarem o ambiente. É um dos principais micro-organismos associados com surtos de gastrenterites de veiculação hídrica.
Quadro clínico: Varia desde indivíduos assintomáticos até quadros de diarréia aguda ou crônica. Em 50% dos indivíduos a infecção é resolvida espontaneamente; em 5 a 15% a infecção é assintomática e o indivíduo pode eliminar cistos nas fezes por um período de até seis meses, enquanto que um grupo menor pode apresentar sintomas decorrentes de uma infecção aguda e/ou crônica. Geralmente, as infecções sintomáticas agudas caracterizam-se por diarréia do tipo aquosa, explosiva, de odor fétido, acompanhada de gases com distensão e dores abdominais. Muco e sangue, raramente, aparecem nas fezes. Essa forma aguda dura poucos dias e seus sintomas iniciais geralmente são atribuídos às infecções virais e bacterianas. Nas infecções que assumem um curso crônico, os sintomas podem persistir por muitos anos manifestando-se com episódios de diarréia que podem ser contínuos, intermitentes ou esporádicos. Outras manifestações clínicas que freqüentemente acompanham o quadro diarréico crônico são esteatorréia, perda de peso e problemas de má-absorção. Na giardíase crônica, as principais complicações estão associadas à má absorção de gordura e de nutrientes como vitaminas lipossolúveis (A, D, E, K), vitamina B12, ferro, xilose e lactose.
Complicações: Desnutrição, deficiência de vitaminas lipossolúveis e vitamina B12. Anemia e perda de peso.
Diagnóstico: O diagnóstico das infecções por Giardia é realizado a partir da identificação microscópica das formas evolutivas do parasito (trofozoítos e/ou cistos) em amostras de fezes. Para os quadros agudos e com diarréia, recomenda-se a coleta das amostras fecais em recipientes contendo substâncias fixadoras, como por exemplo, formol a 10%, MIF (mertiolato-iodo-formol) ou SAF (acetato de sódio-ácido acético-formaldeído). A detecção de antígenos nas fezes empregando a técnica de ELISA tem demonstrado resultados satisfatórios. Atualmente, vários dos ensaios desenvolvidos são comercializados e têm demonstrado sensibilidade de 85% a 95% e especificidade de 90 a 100%.  
Tratamento: Metronidazol, 250mg, 2 vezes/dia, durante 5 dias, para adultos. Para crianças, recomenda-se 15mg/kg/dia, divididas em 2 tomadas, durante 5 dias. Nitazoxanida 500mg 12/12h por 3 dias. Controle de cura é feito com o exame parasitológico de fezes, negativo no 7º, 14º e 21º dias após o término do tratamento.
Vigilância epidemiológica: Não é doença de notificação compulsória.
Medidas de controle: Impedir a contaminação fecal da água e alimentos por meio de medidas de saneamento, educação em saúde, destino adequado das fezes e controle dos indivíduos que manipulam alimentos. Lavar as mãos, após o uso do sanitário e lavar cuidadosamente os vegetais com água potável, e deixando-os imersos em hipoclorito de sódio a 2,5% (uma colher de sopa de hipoclorito em 1 litro de água filtrada), durante meia hora, para eliminar os cistos. Evitar práticas sexuais que favoreçam o contato fecal-oral. Investigar os contatos e a fonte de infecção, ou seja, realizar exame coproscópico dos membros do grupo familiar e de outros contatos. O diagnóstico de um caso em quartéis, creches, orfanatos e outras instituições indica a realização de inquérito coproscópico para tratamento dos portadores de cistos. Realizar a fiscalização dos prestadores de serviços na área de alimentos, atividade a cargo da vigilância sanitária. Em pacientes internados, precauções do tipo entérico devem ser adotadas. No Brasil a Portaria 518/2004 recomenda a inclusão da pesquisa de protozoários patogênicos, como Giardia e Cryptosporidium, em águas destinadas ao consumo humano.
Bibliografia:

AMATO-NETO, V. ; AMATO, V. S. ; GRYSCHEK, R. C. ; TUON FF . Parasitologia - Uma abordagem clínica. 1. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2008. 400 p.


Autor Responsável: Felipe F. Tuon

 

 

 


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